quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Análise econômica do Brasil no início de 2014

O Brasil nos últimos dez anos teve avanços consideráveis no que tange ao seu crescimento econômico, que possibilitou, politicamente que o Brasil pudesse sustentar os seus avanços sociais, uma vez que a presença de governos de “esquerda” e oposição neo-liberal, como os dois mandatos do governo Lula e a atual gestão da Dilma.
A política econômica de viés keynesianista dos últimos governos, também chamados de progressistas, na tendência da chamada “onda rosa” da América Latina, impulsionou o crescimento através de gastos governamentais no âmbito social, como o Bolsa Família, atingindo cerca de 13 milhões de pessoas, o lançamento do Programa Minha Casa, Minha Vida, impactando cerca de 1 milhão de famílias e os Pacotes de Aceleração do Crescimento I e II, levando o Brasil a se posicionar politicamente no mundo  de forma mais sólida e confiante, possibilitando inclusive que o Brasil pudesse arriscar alguns palpites na Política Internacional, através da assunção de responsabilidades como país-potência nos casos como da liderança da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti(MINUSTAH), perdoar as dívidas de países africanos, tornar-se credor do Fundo Monetário Internacional e ocupar a presidência da Organização Mundial do Comércio.
Um país que Lula encontrou em 2003 com reservas internacionais no patamar de 19 US$ Bilhões de dólares chega a 2013 com reservas internacionais de mais 380 US$ Bilhões de dólares, acaba se tornando muito mais respeitado, uma vez que estas reservas internacionais de dólares podem servir para financiar uma Europa em crise ou ser credor dos Estados Unidos da América, através da compra de títulos do governo Norte Americano, que ainda inspiram confiança no mercado, pois esta super potência, ou hiper potência como alguns preferem, tem uma democracia sólida desde os século XVIII, nunca declararam moratória a seus credores  em quase 240 anos de república e tem metade das forças armadas do mundo, abre espaço para que um Brasil mais maduro possa crescer com robustez e responder com altivez as suas responsabilidades em um sistema internacional mais complexo, com a emergência de novos atores.
Entretanto não podemos desconsiderar a fragilidade e dependência que o Brasil tem no seu âmbito econômico, pois embora os números demonstrem um país mais seguro,  por trás destes números escondem o ferreiro com martelo de pau, porque as reservas internacionais brasileira, que são os dólares em poder do banco central, sabendo que o Brasil não é emissor de dólares e por isso tem adquirir dólares através do Balanço de Pagamentos, tem as suas contas superavitárias principalmente na  Conta Capital e Financeira, composta principalmente de  Investidor Estrangeiro Direto, Empréstimos no exterior e recursos de capital especulativo, como as compras de ações e títulos brasileiros a juros altos.
Isto significa que as reservas internacionais de dólares do Brasil não são de capital exatamente brasileiro, mas sim de estrangeiros que apostam no Brasil através de investimentos, empréstimos ou compras de ações, remetendo a maior parte dos seus lucros para os seus países matriz. Ou seja, o Balanço de Pagamentos brasileiro que é composto pelas contas de transações correntes, conta capital e financeira, contas de erros e as contas de variações nos haveres, tem superavitário apenas a conta capital e financeira, no patamar de 13 US$ Bilhões de dólares, que acaba compensando o déficit brasileiro no balanço de pagamentos, influenciado principalmente pelas transações correntes, tradicionalmente deficitária.
Esta sensação de país rico que o Brasil vem adotando constantemente, está sendo sustentado com a poupança externa, já que o Brasil tem uma poupança interna muito pequena e por isto a necessidade de facilitar a entrada de capital estrangeiro no Brasil, através da construção civil, como a transposição do Rio São Francisco, a Hidrelétrica de Belo Monte, a urbanização do Porto Maravilha, a construção de casas populares do Programa Minha Casa, Minha Vida e a construção de estádios para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas, entre outras atividades, que asseguram a certeza do lucro do capital especulativo dos acionistas em bolsas de valores, dos empréstimos internacionais, que terão seus créditos retornados através de altas taxas de juros, ou investidores internacionais, que deixam seus dólares no Brasil, com a certeza da remessa de lucros para o exterior serão de taxas elevadas.
O problema disso são os resultados que o Brasil vem tendo no seu crescimento econômico baixíssimo, influenciado pela retração da economia chinesa e norte americana, hoje o primeiro e segundo maiores parceiros comerciais do Brasil, a alta inflação existente no mercado brasileiro, ainda influenciado pelos estímulos dado pelo governo em momento de crise mundial, como a redução ou eliminação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), principalmente da linha branca, eletro - eletrônicos e veículos automotores, além das mudanças de cálculos nas contas públicas, gerando desconfianças nos investidores internacionais. Para piorar a situação, o FED norte americano anunciou que irá deixar de emitir dólares, o que vai gerar uma falta de liquidez no mercado, que pode levar a uma fuga de capital, mesmo que o Brasil mantenha alta as taxas de juros, já que a tendência é o aumento do preço do dólar no mercado internacional. Valendo sempre aquela máxima: Se tiver uma alta demanda e pouca oferta, os preços subirão exponencialmente. O momento é de comprar dólares!
Concluo, portanto, preocupado com a vulnerabilidade a qual o Brasil está submetido, pois a década de crescimento acelerado, que fez o Brasil tornar-se respeitado e considerado no cenário internacional, levou o Brasil a trazer os avanços sociais tão reivindicados pela população brasileira, desde o fim da ditadura militar, da década perdida e do programa neo-liberal de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Sustentando assim, programas assistencialistas como o Bolsa Família, gerador de 13 milhões de consumidores, a expansão do ensino superior, mesmo que sendo em sua maior parte ditado pelo ensino privado, que recebeu subsídios para a expansão, através do FINAES(Fundo de Investimento de Assistência ao Ensino Superior) ou do PROUNI(Programa Universidade para Todos), o qual das 2.500 instituições de ensino superior, apenas cerca de 250 são públicas. Sendo que as ações afirmativas, reivindicações históricas do movimento negro, apenas puderam expandir-se de forma considerável a sua adoção nas universidades públicas após 2010, ano que o Brasil teve uma das suas maiores taxas de crescimento, puxada pelos seus altos juros e aporte de Investimentos Diretos Estrangeiros, que puderam garantir que a candidatura do Brasil e do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo e para a Olimpíada, respectivamente, fosse possível.
Outrossim, o Brasil não contava com a retração da economia mundial, tal como acontece ciclicamente no sistema capitalista, como previu Marx no século XIX e Keynes, após a crise de 1929, sendo que este último considerou que no mercado, diferente do que acreditavam os liberais, a demanda que definia e os preços e a tendência era o desemprego dos fatores de produção, necessitando que o governo gastasse, principalmente em obras públicas, com vistas a manter o crescimento, gerando crescimento, alta taxa de emprego e liquidez na economia. Porém no caso brasileiro, nota-se que uma retração no mercado mundial, tal como aconteceu na década de 30 e no final da década de 70, leva a uma fuga de capitais, que no caso do café brasileiro, dependente da importação nacional, tiveram uma alta queda de preços e mesmo assim não forma consumidos, sendo obrigados a serem queimados para mantiverem os preços em patamares consideráveis. Já no final da década de 70, a fuga de capitais levou o Brasil a entrar na década perdida, com escassez de crédito, obrigando o Brasil a declarar moratória, durante o governo Sarney, após países da América Latina, como México e Argentina fazerem o mesmo e assim, o crescimento econômico realizado na década de 70, pelos governos de Geisel e Médici, sustentados por reservas internacionais baseadas nas Contas Capital e Financeira do Balanço de Pagamentos, se tornasse perdidos após a retração da economia. E dessa forma, os bens de capital investidos àquela época, se deterioram ao longo de 15 anos, levando a super-oneração de empresas públicas, que em uma solução liberal de Fernando Henrique Cardoso, privatizou mais de 130 empresas públicas para acumular poupança interna e assim diminuir os déficits nas transações correntes.
Certamente a fórmula da década de 70, da ditadura militar, que pode ser repetida, pois tal como na época da ditadura, o Brasil tinha se tornado a 7ª maior economia do mundo, hoje após 10 ano de crescimento, de 2003 a 2013, onde o Brasil está sendo considerado a 5ª maior economia do mundo, após a declaração do FED de deixar de emitir dólares, o Brasil pode estar na eminência de retração de liquidez, que pode afetar o Brasil profundamente, uma vez que o Brasil está vulnerável aos investidores internacionais, embora o comércio de comodities brasileiros sejam variados e de bens essenciais, como trigo, soja e minério de ferro, o que pode levar a tendência brasileira de manter a balança comercial favorável, mas não o Balanço de Pagamentos.